Mulheres defendem redes de apoio para ampliar presença na justiça

Redação Rádio Plug
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Foto: © Valter Campanato/Agência Brasil

Durante a conferência internacional “Mulheres que movem a justiça”, realizada em Brasília até a última sexta-feira (6), especialistas, comunicadoras e ativistas convergiram na defesa da articulação de redes de apoio femininas. O objetivo central do encontro é debater caminhos para construir uma justiça mais igualitária no país, apontando a união como ferramenta indispensável para combater o machismo estrutural e ampliar a representatividade feminina nos espaços de poder.

As participantes destacaram que os profissionais envolvidos na produção e circulação de informações têm o dever cívico de atuar ativamente no enfrentamento a conteúdos misóginos e campanhas de desinformação. A presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino, participou de uma mesa de debates para resgatar a força histórica da união entre mulheres, relembrando o impacto do episódio conhecido como “lobby do batom”.

Tratou-se de uma articulação suprapartidária histórica construída por deputadas federais e senadoras durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988. Segundo Pellegrino, aquela organização política gerou frutos extraordinários, sendo responsável por assegurar grande parte dos direitos fundamentais que as mulheres detêm até os dias atuais.

Estratégia de sobrevivência e renovação institucional

A gestora pública também chamou a atenção para uma oportunidade histórica que se avizinha: a previsão de que ao menos 40% dos cargos vitalícios no judiciário brasileiro passarão por novas nomeações na próxima década. A janela é vista como um momento propício para reverter a baixa ocupação feminina nesses postos de relevância.


Brasília (DF), 05/11/2026 - A presidenta da EBC, Antonia Pelegrino, durante a Conferência Internacional Mulheres que Movem a Justiça. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Brasília (DF), 05/11/2026 - A presidenta da EBC, Antonia Pelegrino, durante a Conferência Internacional Mulheres que Movem a Justiça. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Para que essa ocupação ocorra de forma efetiva, Pellegrino reforça que o fortalecimento mútuo não é apenas um ideal, mas uma necessidade prática. “Trabalhar em rede é algo que nós, mulheres, sabemos fazer há séculos. Atuar em rede, para quem é mulher, é estratégia de sobrevivência”, pontuou perante o público presente.

Além disso, as redes de solidariedade funcionam como um antídoto contra a disseminação de fake news, frequentemente impulsionadas por agendas radicais no Brasil e no exterior. A presidente da EBC alertou que a comunicação pública tem sofrido pressões constantes por parte de governos de perfil extremista.

Combate ao machismo cultural

A advogada e influenciadora digital Sara Gabriela, idealizadora da página “Seja a princesa que salva a si mesma”, enfatizou a urgência de encarar o machismo como um fenômeno enraizado culturalmente que precisa ser combatido na raiz.

Embora avalie a legislação brasileira como avançada e sólida, a criadora de conteúdo ressalta que a atuação jurídica deve ser pautada por dados concretos e rigor técnico, sem abrandar o tom ao tratar da misoginia. O projeto liderado por ela surgiu em 2019 a partir de sua vivência jurídica prestando atendimento a mulheres vítimas de violência em comunidades do estado de Goiás.

Garantia de direitos patrimoniais e civis

O evento também contou com a contribuição da advogada e influenciadora Miriane Ferreira, que acumula milhões de seguidores em sua página no Instagram. Em sua fala, destacou o papel de traduzir a linguagem jurídica para torná-la acessível, permitindo que o público feminino compreenda seus próprios direitos.

Ferreira alertou para um cenário comum em processos de divórcio, onde mulheres abrem mão de direitos sobre bens adquiridos durante o casamento por acreditarem que não possuem resguardo jurídico, desconsiderando a importância e o valor do trabalho doméstico e do cuidado familiar exercido por anos.

“Recomendo também saber o direito fundamental e saber também da sua força do seu trabalho. As mulheres precisam dessa solidariedade uma das outras para mostrar o poder que têm. Nós mulheres somos muito desacreditadas”, declarou.

Desafios no sistema de justiça

Outra voz de destaque no evento foi a da advogada Mayra Cotta, criadora da série “Afiadas”, exibida na TV Brasil. Para ela, embora o volume de denúncias de violência tenha crescido, as vítimas ainda enfrentam um cenário de forte resistência institucional.

“As mulheres estão denunciando mais, mas estão sendo massacradas pelo Judiciário”, avaliou Cotta, acrescentando que a mera presença de mulheres nos tribunais não basta se não houver uma transformação profunda na forma como o sistema acolhe e julga essas ocorrências. A advogada criticou a brandura de magistrados em casos de assédio e abuso.

Participação política e representatividade

A programação integrou ainda a perspectiva da jornalista Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, que destacou as iniciativas de incentivo à participação cívica e ao voto feminino nas eleições recentes. Para ela, a sororidade institucional é fundamental: “Mulheres fora do espaço de poder devem apoiar mulheres que estão nesses lugares”.

Fechando os debates, a cineasta Fernanda Amim ressaltou a relevância de pautar o debate público por meio de narrativas audiovisuais. Diretora do documentário “Reconhecidos”, que investiga as falhas sistêmicas do sistema de justiça criminal e o racismo estrutural através de erros em reconhecimentos fotográficos, ela reforçou a importância de expor as vulnerabilidades do sistema para exigir reparações urgentes.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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